domingo, 18 de agosto de 2013

Vivo num corpo encharcado em maleitas. Hoje está-me a incomodar particularmente o "lixo" nos olhos. Ele flutua à minha frente em partículas muito pequenas, mínimas, mas o suficente para me incomodar a leitura no ecran do computador.
E nada há a fazer. Como nada há a fazer com a artrose que me ataca no ombro direito, como nada há a fazer com o facto da minha perna continuar a reagir mal à prótese. Inflama, dificulta-me a pouca marcha que faço. Quando tento levantar-me é difícil. Tenho a perna presa, para não cair no chão, tenho que a esticar várias vezes. Apoio-me no braço que tem a artrose (ganho depois da operação), tenho dores agudas.
Assim vou-me afundando, manietado por muitas maleitas, degradantes e cada vez mais incapacitantes. Temo pela qualidade do meu futuro, as perspectivas estão longe de ser festivas.
Não foi para isto que fui operado - um pouco contrariado - há pouco mais de um ano. Um pouco contrariado, digo bem. Por minha iniciativa nunca o faria, não fosse a insistência diária e obssessiva da Ana Maria. Foi para meu bem? Não tenho dúvidas. Mas poderia ser um pouco mais moderada, dar-me espaço e tempo a que eu pensasse melhor. A sua insistência sufocava-me. O resultado aqui está. Estou terrrivelmente pior do que há um ano. O dormir deixou de ser aquele momento de repouso agradável que eu tanto prezo.
Também psicologicamente vivo momentos de grande desencanto. O sonho, o devaneio, estão-me fisicamente proibidos. E isto, possivelmente, ainda é o mais dramático na situação que vivo. Eu queria um futuro que fosse além do dia-a-dia vazio e sem objectivos. Se vou ao café, à fisioterapia, ao Continenete, acompanha-me o drama de poder cair. Em cada passo que dou, meço o esforço, o trajecto, as armadilhas, o chão molhado, um degrau imperceptível, alguém que venha contra mim.
Gostava ter uma autonomia física -não estou a pedir muito- que me possibilitasse caminhar sem peias e sem canadianas, ir ao teatro ao Porto, ir a apresentação de livros, a conferências. Viajar na autocaravana por muitos dias, fazer a viajem à Noruega o meu (pequeno) sonho de adolescência.
Estar-me vedado o sonho é o que me custa mais.

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